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Liderança gincaneira não é liderança "BBB"!

Com a crise emocional e física do craque de futebol Ronaldo “Fenômeno”, durante a Primeira Fase da Copa do Mundo da Alemanha, algumas discussões sobre o papel da liderança no Brasil voltaram à tona. Qual é essa influência que o “líder” exerce em seu grupo, em sua equipe, em seu time?

Por que uma dor de cabeça do líder ou uma unha encravada de um capitão podem representar a derrota de todo um esforço empreendido durante um longo período por todo um plantel de profissionais?

Na triste derrota contra a França, em 98, o insucesso, mal explicado na ocasião, foi atribuído a isso: os esforços para a vitória estavam desviados - pensava-se na saúde de um companheiro; mais que isso, não um ocupante do banco de reservas, mas alguém que exerce a função de agregar a equipe, em prol de um objetivo comum; alguém que é referência, símbolo, ícone.

Tem sido objeto de incômodo particular, para mim, algumas definições e crenças sobre a palavra “líder”, de uns tempos para cá, em nosso país. Falo, especificamente, de um programa muito visto, conhecido, badalado. No Big Brother Brasil, “reality show” em que um grupo de pessoas fica confinado em uma casa por quase três meses, há sempre a presença de um “líder”. Ali, naquele contexto, o líder nasce geralmente como fruto do acaso, de um sorteio, de um estourar de balões ou de estar no momento certo na posição certa de um tabuleiro. Mais do que mérito, é uma conspiração do destino, um golpe de azar ou sorte, em que talento, competência e habilidade nem sempre contam. Às vezes, de forma ainda pior, conta apenas a resistência física, a capacidade de permanecer acordado ou de se espremer entre objetos sem satisfazer às suas necessidades mais básicas, como alimentar-se ou ir ao banheiro. Começa daí o meu incômodo. É uma liderança orgânica, portanto, visceral. Vem mais dos intestinos e músculos do que de cérebros e coração. Estaria ligada, então, perdoem-me a força da expressão, mais a excrementos e secreções, do que a ponderações, sentimentos, emoções, racionalizações, valores humanos.

É claro que um líder pode surgir ao acaso. E, quase que geralmente assim é, já que não existem cursos formais ou escolas oficialmente reconhecidas como preparatórias de líderes. Perdoem-me os cursos para empreendedores ou gerentes, mas estes não são, obrigatória e necessariamente, “líderes”, mesmo sendo excepcionais nas funções que irão exercer.

Ainda no meu exemplo do programa televisivo global, os “líderes” de lá têm uma função: escolher, dentre seus companheiros, aquele que será ELIMINADO! Ora, o líder, então, não é o que agrega, mas é o elemento desaglutinador. Longe de inspirar confiança e acolhimento, ele é o elemento que deve inspirar cuidado, desconfiança. E, quem sabe, deve merecer, a partir do surgimento de sua condição de líder, uma certa diferenciação de tratamento. Ele deixa de ser um “igual”, para tornar-se “superior”. E mais: ele adquire PODER! E, mais ainda, ele se torna MELHOR! Passa a ter funções diferenciadas, como coordenar um jogo, sortear a primeira bolinha em uma tarefa qualquer ou ir até à despensa coletar um equipamento necessário para mais um “teste” entre os colegas.

Há, ainda, alguns elementos interessantes na liderança BBB. Como “diferenciado”, certas regras não valem para ele. O dono do poder não pode ser eliminado. Assim, ele está imune ao natural jogo da sobrevivência. No período em que exercer a “liderança”, estará acima das intempéries eliminatórias que envolvem todos os demais. Como não foi um eleito para ser líder, também não poderá ser votado para deixar de ser. Traçadas as analogias com qualquer história, é, portanto, IMORTAL, pelo menos enquanto líder.

Além de tudo isso, o “líder” BBB tem regalias institucionalizadas. Como proprietário do poder, não se constrange em desfrutar das benesses dele, como um quarto especial, uma banheira de hidromassagem, sessões especiais de cinema com aqueles que ELE julgar merecedores – ou seja, ele pode fundar guetos, institucionalizar, por sua vez, novos subgrupos de poder e de vantagens. Sua alimentação é diferenciada. Há, no seu frigobar, refrigerante, chocolatinhos, vinho, cerveja. As regras da “liderança” determinam: ele só pode dividir tudo isso com alguns, a cada vez. Ou seja, esse “líder” é estimulado ao não-compartilhamento geral, à não-unificação do time, à não-reunião acolhedora do todo.

Outro grande incômodo: em qualquer jogo, o uniforme de todos é igual. A diferenciação para o ala, para o goleiro ou qualquer outro serve apenas como uma visualização estratégica. Goleiros, por exemplo, não podem fazer o que bem entendem e têm uma função própria: não deixar a bola entrar. No “time Big Brother”, o roupão do líder tem outra cor, assim como a dos seus convidados, que pertencerão, portanto, a um sub-time, a uma equipe dentro da equipe. Nas últimas versões do Programa, o líder é “coroado” virtualmente, através de efeitos especiais que o mostram com cetro, capa e adereços de um monarca.

O mais pernicioso, em toda esta visão distorcida de liderança, não é quando A EQUIPE acredita nela como verdadeira. É quando O LÍDER assume esse conceito como real! Quando o indivíduo passa a acreditar que liderança é um fenômeno que vem de fora, como uma infecção, como um vírus, que o torna diferente dos demais. Quando o indivíduo perde a peculiaridade de ser espelho. Explico: o espelho é o que reflete, para os demais, aquilo que eles têm de melhor ou pior. Um bom espelho não distorce realidades – amantes da Física, não falo, aqui, dos côncavos e convexos; nessa metáfora, eles já teriam uma distorção, não? Um bom espelho é revelador de talentos, de capacidades, de potenciais. Paradoxo bom: quem se vê no espelho só vê tudo isso porque viu um reflexo... Aquilo que vê em si mesmo está lá “dentro” em algum lugar, em um plano que não pode ser tridimensionalmente tocado. Ele vê isso tudo porque isso tudo ESTÁ no outro – em minha metáfora, no líder especular; ou espetacular, como queiram!

Minha visão do líder gincaneiro passa por aí. Em Nova Lima/MG, no ano passado, abrimos as tarefas do sábado com uma referência ao papel dos líderes no processo. Estava lá, no texto: “alavancar mudanças, experimentar e assumir riscos, sonhar o sonho impossível e compartilhá-lo com os demais, tornar possível a colaboração, zelar pelos valores dos liderados – estas são apenas algumas das características que têm sido apontadas como as de um bom líder. O líder, acima de tudo, tem uma visão ampla do processo e um conhecimento intenso das características de sua equipe. Cabe a ele, também, estar atento para gerenciar mudanças, comuns em qualquer estratégia.

Vocês, líderes, não são “melhores” por serem “superiores”. São “melhores” por serem a força aglutinadora para tornar todos melhores, para tornar a equipe melhor. Se a dor de cabeça de um de vocês pode se tornar mais importante que o jogo, imaginem a relevância de vocês estarem “espelhando” atitudes éticas, solidárias e de autonomia ponderada e equilibrada?

Em uma gincana com a qual nós sonhamos, não nos interessa o líder pavoneador em seu roupão diferenciado, tomando banho de hidromassagem e concentrando em suas mãos todas as decisões. Interessa, isso sim, o líder que sabe “dividir a bola”. Nem sempre é ele quem marcará o gol, mas aquele que terá a humildade de colocar-se no lugar certo, no momento certo, para distanciar-se e deixar passar, com brilho e louvor, o companheiro, em melhores condições para cumprir a devida função.

Esperamos que vocês, LÍDERES GINCANEIROS consigam exercer essa árdua missão. Não sabemos como a liderança surgiu, em cada uma das equipes. Se foi por um sorteio de bolinhas coloridas e, posteriormente, essa nobre atitude não foi sendo construída, lamentamos. Se foi uma escolha, natural, fruto de um reconhecimento e processo, louvamos. Torcemos para que cada um dos líderes possa ser, não o líder BBB, global, sob os holofotes de uma ética duvidosa e esquálida, mas os VERDADEIROS líderes que compreendem que são apenas MAIS UM elo importante em sua equipe, para fazer a diferença na maior vitória, que é o crescimento humano!

 

* Ney Mourão é jornalista, publicitário, poeta e educador. Ampla experiência em condução de grupos, presencial e a distância, em iniciativas de aprendizagem colaborativa, elaboração de atividades virtuais (como gincanas e desafios para jovens e educadores) e coordenação de sites educacionais. Leciona, atualmente, no Centro Universitário Newton Paiva (MG), o Curso de Criatividade em Produção Textual, além de ter reconhecida atuação, em Minas Gerais, como organizador de eventos educativos presencias e a distância sob o foco da Educação. “Coaching” em diversas empresas e programas institucionais.

 

 

 

 

 
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