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Desenhar e pintar são brincadeiras que fazem parte do que eu deixei ficar dentro de mim para ser quem sou hoje.
Na vida isso acontece. Descartamos o que não queremos que nos pertença mais ou impedimos que pertençamos a essas coisas que não nos traduzem com a verdade que merecemos. Vamos com o tempo deixando os rastros do que não fomos e carregamos conosco as tatuagens de histórias passadas, deixando espaço para novos enredos e tramas cada vez mais interessantes, rabiscos de mundos que habitamos, fragmentos de memórias que guardamos. Porque deixei que o desenho e a pintura me habitassem para sempre, vivi cercada de cores. Que coisa boa ter as cores presentes na minha vida! Gosto de olhar cores. Elas podem estar na paisagem que contemplo enquanto atravesso cidades numa estrada movimentada ou elas podem simplesmente se apresentar quando despejo a caixa de lápis de cor no chão. Cores são coisinhas vivas e inquietas que nunca se calam, nem mesmo quando nossos olhos tontos e apressados nos impedem de enxergá-las, seja pela miopia da alma, seja pela ausência de luz. E cor fala em silêncio. Pra perceber cor a gente precisa de luz, mas isso está longe de qualquer explicação da Física, ainda que pela ciência a gente acabe até passando por esse conceito. Pra perceber cor é preciso de luz de dentro e quando ela existe você passa a conhecer as cores. Não é apenas uma questão de vê-las. Conhecê-las é algo um pouquinho mais complexo e maravilhosamente encantador! Cores são operárias ocupadas. Elas competem entre si e batalham pelo seu espaço na sua o br a. Cores querem vencer, mas compreendem que a essência desta competição está na forma como elas irão se organizar, conviver, permitir, trocar, desaparecer até. Uma cor desaparece muitas vezes para deixar outra cor existir e numa dança de mesclas e nuances, faz-se a o br a, surge a arte. Quantos amarelos se calaram para dar voz a verdes inusitados, alaranjados br ilhantes... Quandos azuis se recolheram ao drama dos violetas e ao outros tantos verdes... Vale isso até pro vermelho em sua exuberância, que se doa ao br anco pra criar o mais singelo rosa ou se deixa seduzir pelo azul pra forma púrpuras em profusão. Há as cores dos impressionistas, cores vizinhas que se empilham na tela para de borrões tornarem-se algo mais, na retina que as a br iga por um momento de contemplação. Cores dependentes umas das outras, cores-manchas que se completam na própria finitude para enfim se entregarem ao milagre da imagem que se forma no olhar do observador. Elas sabem que não adianta falar mais alto. Elas competem em seu silêncio capaz de nos ensinar a lição da harmonia, onde depender faz parte, onde não ser tudo é a regra do jogo. Lem br o-me dos lápis da caixa de cores que vinha na lista de material escolar. Todo ano era uma nova caixa. O perfume da madeira misturado ao da massa que dá a cor aos lápis no papel é algo mágico que eu ainda me permito sentir se fechar os olhos. Os lápis preferidos eram os que aparentemente venciam aquela batalha que se iniciava no primeiro dia de aula. Eles estavam em todos os desenhos com suas cores, mas enfrentavam com mais freqüência o impiedoso apontador, que os tornava menores a cada dia. Até que chegava o dia em que outros azuis passavam a ocupar seu lugar. Na dança das cores, a magia ficava por conta da troca de papéis, da nova ordem. Quem um dia fora indispensável poderia hoje estar, em sua pequenez, olhando curioso ao despertar de novos tons, de talentos pacientes que aguardaram sua vez. Competir é um pouco disso tudo. Cores de pessoas, talentos e tons em movimento. Nuances de vitórias em companhia de espectros de derrotas temporárias, lado a lado, em sintonia. A dimensão do outro justificando a sua ousadia e br incando com seus limites. A sua glória na geografia oculta do seu adversário em interação viva, crescente, próxima e fraterna. Não há espaço para guardiãos de troféus, para colecionadores de sonhos ocos e egoístas. Para haver vitória há que se a br ir as janelas do sonho e deixar que por elas passe a br isa que nos mostra eternamente dependentes da competência alheia, crendo que ali logo ao lado há um outro que de nós depende. E a trama vai se tecendo num desenho leve, quase um rascunho... mas algo que guarda um segredo muito, muito importante... Adriana Hollenbeck Coordenadora Pedagogica do Portal EduKbr Arte-Educadora e Diretora do St.Bernard's Day Care Watertown, Wisconsin - EUA
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